Bastú

1 de setembro de 2011

Maria Sebastiana Martins Álvaro do Nascimento é uma senhora muito simpática e de uma sabedoria única. Tem uma sensibilidade especial para lidar com gente de todos os tipos e sabe contar histórias como ninguém. Nascida em Urucuia, antiga “Porto de Manga”, cidade cortada pelo Rio Urucuia, um dos mais belos afluentes do São Francisco, Bastú (apelido de Maria Sebastiana) aprendeu a caçar, pescar e cultivar a terra. Seu linguajar muito peculiar, reforçado pelo uso de interessantes dialetos e expressões populares, contribuem para o “clima”, o “tom” e a verossimilhança de suas histórias. Conhece como poucos as lendas do rio, em que ela mesma se recusa a nadar até o fundo, desde que na sua infância foi salva por um “peixe encantado dourado”, depois de ser levada bem longe correnteza abaixo. Dessa história nasceu a crença em Bastú de ser uma pessoa que possui um tipo de contato especial com os peixes. Seu lado onírico é muito forte e diz que sonha todas as noites. Preserva uma incrível capacidade de recordá-los e tem convicção de que todos seus sonhos são reais ou que no mínimo estão envolvidos em alguma realidade. Diz que já foi muitas vezes a São Paulo, cidade em que caminhara longamente pelas ruas e que conhecera muito bem através dos seus sonhos. Se você perguntar a Bastiana se ela já foi a São Paulo, ela não só responde afirmativamente como também é capaz de descrever as ruas, os edifícios e destacar alguns pontos da cidade.

Ela vê a morte como parte da vida e encarou com naturalidade a morte de seu ex-marido, Feliciano. Para ela não existe uma exata separação entre a vida e a morte, realidade e sonho, tradição e novidade. Uma pessoa que extravaza uma alegria contagiante, um humor único, seu riso é delicioso, desconcertante. É dessas pessoas que a gente tem vontade de abraçar e sempre estar por perto. Tem a certeza de que todos os nossos desejos e sonhos são possíveis, até mesmo bater asas e voar sobre mares, terras e montanhas, como fez em alguns de seus sonhos, usando “asas emprestadas por Deus”.

Maria do Boi

30 de agosto de 2011

Maria da Conceição Gomes de Moura é uma senhora de 83 anos. Foi criada na roça e aos 7 anos sua mãe, Dona Ernestina e seu pai Seu Ângelo, apelidado “Seu Anjo”, a levaram para a pequena Vila Risonha de Santo Antônio da Manga de São Romão. O povoado ainda estava em formação e a família de Maria logo se instalou numa rua defronte a uma praça. Devido as tradições festivas e musicais da familia, a rua foi batizada como Rua da Alegria. Além de aprender a remar, pescar, plantar e cuidar dos animais, Maria aprendeu com seus pais o ofício de tocar tambor. A música de Maria, de raízes fortes, possui uma força espiritual que transcende uma energia extasiante capaz de elevar a alma e evocar antepassados. Uma arte pura, simples, quase primitiva. Cantam a natureza, o rio, as crenças, os belos pássaros do sertão, o amor, o ódio, o sofrimento, a vida, a morte, a seca, a esperança pela chuva e as coisas cotidianas da vida dura do sertanejo. Maria é a maior conhecedora de todos os ritmos afro-brasileiros referentes a diversos tipos de diferentes tambores que ela mesma faz. O apelido “Maria do Boi” vem de uma de suas tradicionais comerações, a festa do Boi.

Mulher forte, negra, de baixa estatura, manca um pouco por suas pernas cansadas de uma vida na lavoura, Maria não teme nada nem ninguém. Exige seus direitos e o respeito as suas tradições e a sua familia… Sua aparente “dureza”, na intimidade dá lugar a uma mulher única, de uma sensibilidade rara, tenaz e renovadora. Tem uma sabedoria, um conhecimento do ser humando, uma compreensão sobre o sentido da vida e uma visão de mundo impressionantes. Ganhou fama de “mal criada” na cidade por ser muito franca e não aceitar ou se render aos caprichos de determinadas forças politicas e sociais.